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Cobrança


Estranha essa sensação
Não posso pegar nada em minhas mãos
Não posso ainda respirar o alívio
Não posso por meus pés fora do chão
Estranha luta por nada
E os braços tão cansados
E o coração tão ferido
E os pés tão machucados!
Estranho vazio que ficou depois
De tanto barulho que eu fiz
Briguei, arranhei, agredi.
Mas tudo doeu mais em mim
Estranho olhar para o próprio passado
e ver-se tão manipulável
Estranha a dúvida que fica
sobre mim mesma quando olho para o lado
Estranho mesmo é eu não saber
quem eu sou, depois de tanta guerra
A calmaria que aparentei
era apenas externa.
Estranha a dor que ficou no peito
Parece que vai ser assim para sempre
Depois de tanta energia dispersada
Foram levadas ao vento as minhas palavras.
Como posso oscilar tanto assim
Tem dias que sou muito mulher,
Muito diferente daquela infantil.
Mas em outros eu sou tão como ela,
Parece que nada em mim mudou.
Não posso pegar , nem mostrar tais mudanças
Foi dentro de mim que tudo se transformou.
A sensação de culpa, revolta, arrependimento,
são covardias em cima de mim,
Eu era o que eu sabia e não tinha outro jeito,
Lamentável mesmo ter esse fim.
E quem machucou a fundo o meu peito,
Quem abusou da porta aberta,
São pessoas que vivem suas vidas assim,
Sem imaginar que seus estilhaços ainda me cortam.
Estranho cobrar de mim isso hoje,
Cobrar que eu seja quem eu nunca fui,
Talvez eu seja ainda pequena
Caminhando rumo aos ares azuis,
Eu quero ser alguém para mim mesma,
Mas para mim tudo demanda tempo,
Eu preciso me sentir inteira,
Ser a dona das escolhas do meu mundo.

Comentários

  1. Aprecio cada palavra sua, Verônica. Você é talento e inspiração. Tudo de bom!

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A morte da menina

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