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Café


Houve um tempo em que eu tinha que voltar para dentro de mim e ficar quieta.
Eu tinha que colocar a minha alma de volta em mim, e ficar esperando...
Esperando passar algum grande fato que nunca chegava.
Eu tinha que guardar meus sonhos porque eu tinha medo.
Não era um medo de escuro, como um medo de criança.
Eu tinha medo de ter medo. Eu tinha um medo que não me bloqueava para nada; eu tinha um medo que era meu amigo, minha companhia, parte de mim.
Eu tinha um medo que me fazia deixar passar o tempo, assim como passar tudo o que não me fazia ser feliz. Nem triste. Era um medo que me deixava observadora, inerte, incapaz.
Incapaz de quê? Eu não me sentia incapaz de nada, porque eu não queria nada.
Era um medo que não me assombrava, não me fazia mal, não me fazia nada.
Talvez nem fosse medo. Fosse uma total falta de vontade de ir atrás de alguma coisa.
Existe uma vida que não quer nada? Eu não queria.
Era uma sensação boa de caos. Eu controlava o meu caos. Eu sabia a temperatura do meu café pela manhã, o horário do ônibus e o tom de voz rouca das pessoas mal humoradas ao responder ‘bom dia’, mas nem me olhavam no rosto.
Sabia que veria algumas cenas e pensaria ‘queria que isso acontecesse comigo’; ou me sentiria melhor ao pensar ‘pobre pessoa’.
Sabia que ninguém me amaria sinceramente, porque o que eu queria eu não podia dar.
Sabia que o melhor do ser humano ainda é pouco. Era medíocre, sabia o que sabia.
Existe um momento em que você tem que quebrar a parede, arrebentar as cordas e deixar de saber como será o seu dia. Vivi loucuras. Fiz amigos, amei, fui largada, larguei. Fiz tudo errado e era meu lado certo.
Após uma tempestade tem horas que não se vê sol. Não se vê nada. Tem céu e pronto.
Estou assim. Tem céu e pronto. O medo, amigo de tanto tempo, voltou. Tem céu e medo.
Tem café quente, ‘bons dias’ frios e mais nada. Não ficou nada daquela loucura.  
Voltar a ser menina quando não se tem mais tempo. Voltar a observar quando tudo já se viu. Voltar a ser céu, quando já sentiu o sol.
Voltar a ser mais uma quando já conheceu o amor. Voltar para dentro de mim, quando observo a minha alma e não está mais vazia. Dentro dela agora tem você.
Maldito seja o amor que encontrou meus sonhos e meu café. Tirou meu sono e me deixou de pé.

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